A manhã começou como qualquer outra. Depois de vários dias de calor, a terra ao redor da casa estava seca, então decidi regar as flores cedo, antes que o sol ficasse forte demais. Peguei a mangueira, abri a água e estava prestes a caminhar até o canteiro mais distante quando um cheiro horrível me fez parar de repente.
A princípio, pensei que algum pequeno animal tivesse morrido por perto. O odor era forte, pesado e tão desagradável que quase voltei imediatamente para dentro de casa.

Mas a origem daquele cheiro estava muito mais perto do que eu imaginava.
A poucos metros do canteiro, ao lado de uma velha cerca de madeira, algo de um vermelho intenso aparecia entre a grama.
Parei.
À primeira vista, parecia um pedaço de carne crua jogado no chão. Mas, depois de alguns segundos, percebi um movimento.
As estruturas vermelhas balançavam levemente.
Instintivamente, dei um passo para trás.
Minha primeira impressão foi de que poderia ser algum tipo de verme estranho ou um animal que eu nunca tinha visto antes. Aquela coisa parecia úmida, quase viscosa. E era claramente dali que vinha o cheiro repugnante que eu havia sentido perto da porta.
Eu não tinha nenhuma vontade de me aproximar.
Mas a curiosidade acabou vencendo.
Cheguei mais perto com cuidado, tomando atenção para não tocar em nada. Foi somente então que percebi que estava enganado desde o início.
Aquilo não era um animal.
Aquilo havia crescido do chão
Quando observamos com atenção a base de uma formação tão incomum, podemos perceber características típicas de um fungo. Organismos assim realmente existem e podem assustar bastante quem os encontra pela primeira vez.
Um dos exemplos mais conhecidos é o Clathrus archeri, um fungo muito peculiar que possui braços vermelhos ou alaranjados semelhantes a tentáculos. Em vários lugares, ele é conhecido popularmente como “dedos-do-diabo” ou “fungo-polvo”.
Quando jovem, seu corpo de frutificação quase não lembra a estrutura extraordinária que surgirá depois. Inicialmente, ele se desenvolve dentro de uma espécie de cápsula clara e arredondada, parecida com um ovo, que pode ficar sobre o solo ou parcialmente enterrada.
Depois, essa camada externa se rompe.
Vários braços vermelhos começam a sair de dentro e gradualmente se abrem para os lados. É justamente por isso que um exemplar adulto pode ser confundido com uma criatura marinha, um inseto gigante ou até mesmo algum ser saído de uma história de ficção científica.
Mas sua aparência representa apenas metade da surpresa.
Por que ele tem um cheiro tão horrível?
Muitas flores utilizam aromas agradáveis para atrair insetos polinizadores. Alguns fungos desenvolveram uma estratégia completamente oposta.
Na superfície do corpo de frutificação forma-se uma substância escura e pegajosa que contém esporos. Ela libera um odor muito forte, semelhante ao de matéria orgânica em decomposição.
Para os seres humanos, esse cheiro pode ser extremamente desagradável.
Para as moscas, porém, ele é atraente.
Os insetos pousam sobre o fungo e entram em contato com a substância que contém os esporos. Depois, carregam parte deles nas patas e no corpo para outros lugares, contribuindo para sua dispersão.
Dessa forma, o fungo utiliza as moscas como uma espécie de meio de transporte.
O que parece repugnante para nós é, na realidade, uma estratégia bastante eficiente de reprodução na natureza.
É justamente por isso que a primeira impressão causada por esse fungo pode ser tão enganosa. Sua cor vermelha, o formato estranho e o cheiro de decomposição fazem nosso cérebro procurar uma explicação conhecida: um animal ferido, órgãos expostos ou alguma criatura desconhecida.
A realidade, porém, é muito mais interessante.
Como algo assim pode aparecer em um jardim?
Encontrar um fungo incomum não significa necessariamente que exista algum problema com o jardim.
A rede de filamentos do fungo pode permanecer escondida durante muito tempo no solo ou em materiais vegetais em decomposição. Locais com lascas de madeira, raízes antigas, composto orgânico, cobertura vegetal e outros materiais semelhantes podem oferecer condições especialmente favoráveis.
Quando a umidade e a temperatura se tornam adequadas, os corpos de frutificação podem surgir rapidamente.
Por isso, uma pessoa pode cuidar do mesmo jardim durante anos sem perceber nada fora do comum e, certa manhã, encontrar ali um organismo que nunca havia visto antes.
Sua aparência extraordinária também pode durar pouco tempo. O fungo surge, se abre, espalha seus esporos e depois começa gradualmente a se decompor.
É seguro tocar nele?
Ao encontrar um fungo desconhecido, o mais prudente é evitar tocá-lo diretamente com as mãos. Também não se deve determinar se um cogumelo ou fungo desconhecido é comestível apenas pela aparência ou por uma fotografia.
Existe uma enorme variedade de espécies, e organismos visualmente semelhantes podem apresentar características muito diferentes.
Se o fungo aparecer no jardim e seu cheiro forte estiver causando incômodo, o corpo de frutificação visível pode ser retirado cuidadosamente com o uso de luvas. No entanto, remover a parte que está acima do solo não significa eliminar todo o fungo. A maior parte de sua rede permanece escondida no solo ou em outro substrato e pode ocupar uma área muito maior.
Se ele não estiver causando problemas, outra possibilidade é simplesmente deixá-lo no local e observar seu desenvolvimento.
Para mim, aquela descoberta se transformou em um lembrete inesperado de como a natureza aparentemente comum pode ser surpreendente.
Poucos minutos antes, eu estava convencido de que alguma criatura desconhecida havia aparecido perto das minhas flores. Permaneci a certa distância, tentando decidir se era seguro me aproximar.
Na realidade, eu estava apenas observando uma etapa normal do ciclo de vida de um organismo incomum.
No fim, terminei de regar as flores, mas durante o dia voltei várias vezes ao mesmo lugar para olhar novamente.
Os “tentáculos” vermelhos já não pareciam tão assustadores.
Mas o mais surpreendente era outra coisa.
Eu não precisei viajar até uma floresta distante nem procurar animais raros para encontrar algo que parecia ter saído diretamente de um filme de ficção científica.
Bastou sair para o meu próprio jardim certa manhã.